O futuro da esquerda, segundo um crítico marxista

analise historica

Os intelectuais de esquerda, como a maioria dos intelectuais, não são bons políticos; especialmente se entendermos por política, como pretendo argumentar que deveríamos fazer, os detalhes comezinhos, o trabalho sem lustro e o brilho da performance.

Os intelectuais se atrapalham na hora de ler a partitura. Desafinam quando estão no palco. Mas talvez sirvam para uma coisa: mantendo a analogia musical, eles são, por vezes, os contrabaixistas da fila de trás, cujo resmoneio dá momentaneamente o tom da política e chega mesmo a indicar uma possível nova configuração para ela. Vez por outra, pode inclusive acontecer de a sobrevivência de uma tradição de pensamento e ação depender exatamente disso –de que a política seja submetida a uma mudança de tom. É o que me parece estar acontecendo com a esquerda hoje.

Estes apontamentos dirigem-se essencialmente (lamentavelmente) à esquerda do antigo centro do capitalismo –a esquerda da Europa. Mas pode ser que ecoem em outros lugares. Nada têm a dizer a respeito da invulnerabilidade do capitalismo a longo prazo e não emitem julgamento –que louco se atreveria a fazê-lo nas circunstâncias atuais?– sobre a eficiência com que esse sistema gere seus domínios globais ou sobre a eficácia de seu humanismo militar.

Divulgação
Torre de Babel por Pieter Bruegel (c. 1565)
Torre de Babel por Pieter Bruegel (c. 1565)

O único veredicto implícito no que segue é um veredicto negativo quanto à possibilidade de que a esquerda atual –a esquerda realmente existente, como costumávamos dizer– ofereça uma perspectiva em que os defeitos do capitalismo, e os dela própria, façam algum sentido. Por “perspectiva”, entendo uma retórica, uma tonalidade, uma imagística, uma argumentação e uma temporalidade.

Por “esquerda”, entendo uma oposição radical ao capitalismo. Mas essa oposição, como sustento a seguir, nada tem a ganhar com previsões arrogantes e irrealistas sobre o fim próximo do capitalismo. A radicalidade é estabelecida no presente. Quanto mais profundos os esforços preparatórios de um movimento político, tanto maior o seu foco no aqui e agora.

É evidente que existe uma alternativa à ordem atual das coisas. Mas isso não leva a nada –nada que mereça ser considerado político. Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o “pescrai” e para o “maruflicchio”* com ironia infinita –uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro– do que apostar em uma política fundada, ainda outra vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.

*

É uma visão pessimista? Admito que sim. Mas, à luz dos últimos dez anos, que outra tonalidade parece possível? Como se espera que entendamos a materialização de uma derrocada para valer a ordem financeira mundial (“Essa joça pode ir pro brejo”, como disse George W. Bush a seus auxiliares em setembro de 2008) e o quase total fracasso da esquerda em fazer com que suas respostas a isso tivessem uma repercussão mais ampla e não fossem ouvidas só entre fileiras dos fiéis? Ou, visto de outra maneira: se a década passada não é prova da inexistência de qualquer circunstância capaz de reconstituir a esquerda nas formas que ela assumiu nos séculos 19 e 20, o que se entende então por prova?

É um momento amargo. A política, em boa parte do velho e anteriormente inamovível centro, parece tomar, a cada mês que passa, uma forma mais e mais “total” –um caráter de tudo ou nada para os que a vivenciam. E na realidade (que não se confunde com o mundo fantasioso das conferências marxistas) isso é tão desanimador para a esquerda quanto para qualquer outra corrente política.

A esquerda está igualmente despreparada para enfrentar a situação. O silêncio dos esquerdistas gregos, por exemplo –sua incapacidade de apresentar um programa alternativo de política econômica que contemplasse de forma efetiva e convincente a opção pela moratória, incluindo uma projeção, ano a ano, das consequências de uma saída “ao estilo argentino”– é sintomático. E digo isso sem o menor sarcasmo.

Dado o entrelaçamento da presente ordem mundial, se e quando a economia de um país entra em crise, o que alguém, seja quem for, tem para dizer –com um mínimo de detalhes que não façam a pessoa cair no ridículo– sobre o “socialismo em um só país”, ou mesmo sobre o “capitalismo não dirigido pelo capital financeiro num pseudo-Estado-nação em situação de parcial isolamento”? (Por acaso a esquerda pretende se associar aos eurocéticos em sua longa marcha? Ou apostar suas fichas no proletariado de Guangdong?)

A questão do capitalismo –justamente porque o próprio sistema está se colocando de novo a questão (se torturando com ela), fazendo assim que ela, com toda a sua enormidade, ofusque o teatro de sombra dos partidos– tem de ser deixada temporariamente de lado. Não há como dotá-la de caráter político. A esquerda faria melhor voltando sua atenção para aquilo a que esse caráter ainda pode ser conferido.

*

É difícil pensar historicamente sobre a crise atual, mesmo em termos gerais –comparações com 1929 não parecem ajudar–, de modo que não há como saber em que vai dar essa mistura de caos e “rappel à l’ordre”. O gás lacrimogêneo é colírio nos olhos dos investidores; a greve geral dos gregos está em todas as bocas; o Goldman Sachs faz e acontece no mundo.

Talvez possamos estabelecer um paralelo entre o que vem se passando de 1989 para cá e o momento posterior a Waterloo na Europa –o momento da restauração e da Santa Aliança, da aparente imobilidade histórica mundial (apesar da vigorosa reconstelação das forças produtivas) no período que vai de 1815 a 1848.

Considerando o projeto do Iluminismo –meu tema continua a ser o da resposta do pensamento político a transformações em larga escala das circunstâncias–, esses anos foram um interregno desprovido de paradigmas. O longo arco da crítica racional e filosófica –o arco que passa por Hobbes, Descartes, Diderot, Jefferson e Kant– havia chegado ao fim. Retrospectivamente, pode-se dizer que, sob o verniz da restauração, formavam-se já os elementos de uma nova visão da história: mutações peculiares no utilitarismo e na economia política; as especulações de Saint-Simon; os contrafáticos de Fourier; a energia intelectual dos jovens hegelianos.

Mas, na época (à sombra de Metternich, de Ingres e do segundo Coleridge), era extremamente difícil tomar esses elementos pelo que eles de fato eram, quanto mais vislumbrar a possibilidade de que viessem a fundir-se em uma forma de oposição– uma compreensão nova daquilo a que era preciso se opor e uma intuição sobre o novo ponto de vista a partir do qual a oposição poderia avançar.

É nisso que a Europa de Castlereagh1 se assemelha à Europa de hoje: na sensação de que caíram por terra uma linguagem e um conjunto de postulados até então tidos como conducentes à emancipação, e também na dúvida, bastante realista, de que os elementos de uma nova linguagem possam de fato ser encontrados no espetáculo geral de uma política engessada, de uma economia impiedosa e de um entusiasmo generalizado (como sempre) pela mais recente e estúpida novidade tecnológica.

*

Em outras palavras, a questão para a esquerda no momento é: quão fundo tem de ir a sua reconstrução do projeto do Iluminismo? “Quão para baixo?” Entre nós, há quem pense: “Sete níveis do mundo”2. Tenho a sensação de que o livro que deveríamos estar lendo –em vez de “L’Insurrection qui Vient”3 — é “The Experience of Defeat”, de Christopher Hill.

Ou seja, as heterogêneas, inesperadas e sem dúvida perigosas vozes de que me socorro nestes apontamentos –Nietzsche, apesar de tudo; as páginas de Bradley sobre a tragédia; o aterrorizante “Homo Necans”, de Burkert; o que Hazlitt e Bruegel têm de mais implacável; Moses Wall nas trevas de 1659; Benjamin em 1940 –só em momentos de verdadeiro fracasso histórico vêm à mente como recursos de que a esquerda pode se valer. Só lhes damos ouvidos quando os fatos nos obrigam a perguntar o que, em nossas anteriores encenações da transfiguração, levou à derrocada atual.

O uso que faço da palavra “esquerda” remete, claro, a uma tradição política de que quase já não há traço algum nos governos e oposições que temos hoje. (Parece uma excentricidade perder tempo agora com os tipos de diferença –assinalados no passado pelo prefixo “ultra”– que essa tradição comportava. Depois que o sol se põe, todos os gatos são pardos.) “Esquerda”, portanto, é um termo que denota uma ausência; e essa quase não existência precisa estar explícita em uma nova forma de pensar a política.

Disso não se segue, porém, que a esquerda deva continuar a exaltar a própria marginalidade, como seus integrantes frequentemente se sentem inclinados a fazer –exultando no glamour de sua grande recusa e relegando à escuridão que reina lá fora o resto de um mundo impenitente. Desse lado fica o intelectualismo4.

A única abordagem política de esquerda que faz jus ao nome é, como sempre, a que olha nos olhos de sua insignificância, mas cujo interesse está todo voltado para aquilo que pode transformar o vestígio, lenta ou repentinamente, no começo de um “movimento”. Muitas e amargas serão as coisas sacrificadas –as ideias grandiosas, a estilística revolucionária– no processo.

Notas * Uma das epígrafes do livro, aqui suprimida, foi extraída de “Cristo Parou em Eboli”, de Carlo Levi. O trecho explica que, embora haja no dialeto termos distintos para falar de dias futuros (amanhã é “crai”, depois de amanhã é “pescrai”, até o sétimo, “maruflicchio”), eles costumam ser usados juntos, provando a “inutilidade de se querer enxergar alguma coisa no eterno nevoeiro do ‘crai'”.

1. Chanceler do Reino Unido entre 1812 e 1822, Robert Stewart, o visconde de Castlereagh [1769-1822] teve atuação decisiva na administração da coalizão internacional que derrotou Napoleão e foi o principal diplomata britânico no Congresso de Viena. [N.E.] 2. Alusão ao poema “Lovely Shall Be Choosers”, de Robert Frost [1874-1963], em que, num diálogo travado em uma espécie de além-mundo, decide-se submeter uma mulher a uma série de (sete) duras frustrações na vida. Uma voz (“A Voz”) diz: “Joguem-na para baixo!” [Hurl her down!], ao que outras vozes (“As Vozes”) indagam: “Quão para baixo?” [How far down?], e a Voz responde: “Sete níveis do mundo” [Seven levels of the world].[N.E.]

3. Ensaio-manifesto que faz uma análise radical da sociedade ocidental e propõe uma insurreição mundial em moldes anarquistas, defendendo a sabotagem a todas as instâncias de representação e a formação de comunas. Foi publicado em 2007 pelo Comité Invisible, um grupo de ativistas franceses que permanecem no anonimato. [N.E.]

4. No original: That way literariness lies, alusão à frase: This way madness lies [“Desse lado fica a loucura”] com que o rei Lear, na peça homônima de Shakespeare, indica a direção do castelo onde se encontram as duas filhas cuja ingratidão o põe ensandecido. [N.E.]

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