A Igreja católica da Argentina, com certeza, colaborou com a ditadura militar: Análise jurídica

analise juridica

jorge-bergoglio-papa-francisco-Quem tem mais de 60 anos e não foi preso ou torturado há 40, é suspeito, até prova em contrário, de ter colaborado com a ditadura. A premissa serve para brasileiros e argentinos, e, por mais falsa que seja, foi prontamente aplicada a Jorge Mario Bergoglio, desde que, na última quarta-feira, passou a atender pelo nome de papa Francisco e tornou-se o chefe supremo da Igreja  Católica.

Se no Brasil o patrulhamento em torno de eventual colaboracionismo com os militares já é grande, na Argentina é simplesmente atroz. Com razão. Lá, tem-se documentada a morte ou desaparecimento de mais de 9 mil pessoas mas as estimativas são de que 30 mil pessoas tenham sucumbido sob as botas dos militares que governaram o país entre 1976 e 1983. As feridas dessa tragédia continuam abertas e provocam emoções e cobranças sem fim de todos os lados.

E se nem o novo papa escapou da patrulha, é porque uma boa parte da Igreja Católica participou ativamente e apoiou o regime instalado pelo general Jorge Videla em 1976. E é isso que todos querem saber agora que o antigo padre Jorge Bergoglio, chefe provincial dos padres jesuítas na Argentina virou o papa Francisco, em Roma. Uma boa análise das relações da Igreja com os ditadores está no livro Iglesia y Dictadura – El Papel de La Iglesia a la Luz de sus Relaciones com el Régimen Militar, escrito por Emílio Mignone, em 1986 – quando Bergoglio sequer era bispo e nem sonhava em ser papa.

Mignone, que morreu em 1998, era advogado, católico praticante e militante dos direitos humanos à época em que escreveu o livro. E era também o pai de Monica, uma jovem que aos 24 anos foi sequestrada em sua casa por um comando militar e nunca mais foi vista. O que ele diz no seu livro está, portanto, despido de todo oportunismo que pode mover eventuais acusadores e defensores de Bergoglio no momento em que ele se converteu em celebridade universal.

No livro, Mignone cita três vezes o nome de Bergoglio, que na época era a maior autoridade da Companhia de Jesus, a ordem dos jesuítas, na Argentina.  Na primeira referência ele conta: “No dia 23 de maio de 1976, a infantaria da Marinha deteve no bairro de Baixo Flores ao padre Orlando Yorio e o manteve durante cinco meses na condição de ‘desaparecido’. Uma semana antes da detenção, o arcebispo de Buenos Aires, Juan Carlo Aramburu, o tinha suspendido das funções eclesiásticas, sem motivo nem explicação.

Pelo que escutou em seu cativeiro, ficou claro para Yorio que a Marinha interpretou a punição imposta a ele pelo arcebispo e as manifestações críticas de seu provincial jesuíta, Jorge Bergoglio, como uma autorização para agir contra o padre. Sem dúvida, os militares haviam alertado ambos os religiosos sobre a suposta periculosidade de seu subordinado”.

Junto com Yorio, foi preso outro jesuíta, o padre Francisco Jálics. A dupla morava e trabalhava numa favela de Buenos Aires. Os dois ficaram presos por cinco meses, tempo em que foram tidos como “desaparecidos”. Reapareceram em outubro daquele ano, quando foram deixados por um helicóptero num terreno baldio na periferia de Buenos Aires. Estavam dopados. Mignone encerra seu relato sobre a prisão dos dois jesuítas com uma observação:

“Já comentei a duvidosa intervenção na prisão desses padres do cardeal Aramburu e do provincial dos jesuítas, Jorge Bergoglio”.

Yorio morreu, de morte natural, em 2000. Nos jornais deste sábado (16/3), sua irmã acusa Bergoglio de ter delatado as atividades de militante de esquerda de Yorio para os militares. Jálics, que tem origem húngara e vive hoje na Alemanha, diz ter se reconciliado com Bergoglio.

O que é incontestável é que na época da prisão dos padres, Bergoglio e seus subordinados não rezavam pela mesma cartilha e estavam ideologicamente em extremos opostos.

O autor volta falar de Bergoglio quando trata do papel desempenhado por publicações católicas durante a ditadura. Uma dessas publicações era a revista  do Centro de Pesquisa e Ação Social, uma ONG mantida por padres jesuítas progressistas. A revista, de pequena circulação, era capaz de divulgar ideias ousadas para aqueles tempos difíceis. Num artigo intitulado Os direitos humanos no atual contexto sociopolítico da Argentina, o padre Vicente Pellegrini afirmava:

“Devemos impedir a degradação das forças armadas, pelo uso da tortura. Isso deve ser impensável para a honra militar. Converter um militar, cujo ideal é lutar pela justiça, em um vulgar torturador seria a maior vitória do terrorismo”.

A revista dos jesuítas não durou muito, segundo explica Mignone: “A hegemonia do padre Jorge Bergoglio e de seu grupo dentro da Companhia de Jesus fez minguar a vitalidade do centro e de sua revista”.

O dado serve apenas para informar que, à época, as ideias na cabeça de Begoglio estavam mais próximas da ideologia de “defesa da civilização cristã ocidental”, sustentada pelos militares da ditadura, do que da opção preferencial pelos pobres, defendida pelos padres progressistas de sua ordem religiosa.

No livro, Mignone revela que a igreja argentina não se posicionou de forma uniforme e coesa diante da ditadura. Havia um grupo que aderiu abertamente ao golpe e aos golpistas. O representante mais notório desse grupo foi padre Christian von Wernich. Capelão militar à época, em 2007, Wernich foi condenado à prisão perpétua por  cumplicidade em sete mortes, 31 casos de tortura e 42 sequestros na província de Buenos Aires. A lista de personagens que se alinharam ostensivamente com a ditadura inclui capelães militares, padres e bispos.

Mignone conta que o Padre Astigueta, capelão da Aeronáutica em Córdoba, “ministrava a confissão para os presos antes de serem fuzilados nos centros de detenção clandestinos”. O padre Gallardo, capelão do III Exército, também em Córdoba, disse a um preso “que só era pecado torturar por mais de 48 horas”.

Do outro lado, estavam os jovens padres progressistas, que aderiram ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo e à Teologia da Libertação e que exerciam uma intensa atividade social entre os mais pobres e  faziam oposição aos militares. No  livro Argentina Nunca Más,  um denso relatório que investigou os crimes da ditadura argentina logo após a saída dos generais de cena, consta a uma lista com mais de 30 padres e religiosos e mais de 20 católicos leigos que caíram vítimas da repressão militar. “O número de cristãos comprometidos em atividades apostólicas que foram vítimas do terrorismo de Estado é difícil de estimar. Envolve, certamente, uma quantidade importante dos milhares de assassinados, presos, exilados e desaparecidos que produziram as forças armadas entre 1974 e 1983”, escreveu  Mignone.

Entre as vítimas estavam dois bispos: Emílio Angelelli e Carlos Ponce de León, ambos mortos em supostos acidentes de carro, que, mais tarde, comprovou-se  terem sido genuínos atentados. Mas estes foram exceções. A cúpula da igreja católica na Argentina teve uma atitude no mínimo dúbia, se não de cumplicidade com a ditadura. Segundo Mignone, a conservadora igreja argentina não estava preparada para as mudanças pregadas pelo Concílio Vaticano II e muito menos para enfrentar os desafios políticos do início dos anos 1970.

Foi nesse estado de instabilidade que eles procuraram se acomodar perante os poderosos da hora. “Esta sinistra cumplicidade explica algo que custa aos observadores estrangeiros entender: a surpreendente passividade de um episcopado que contempla imutável o assassinato, o sequestro o exílio e a tortura de bispos, padres, religiosos e simples fiéis.”

E era justamente à Igreja que recorriam em busca de auxílio os pais, parentes e amigos de vítimas da repressão quando estas eram sequestradas e sumiam misteriosamente. Em muitos casos os hierarcas simplesmente se recusavam a tratar desse assunto espinhoso. Mas mesmo quando abriam as portas de suas igrejas para os perseguidos, costumavam ter mais desculpas para as atrocidades que estavam sendo cometidas do que empenho para buscar respostas aos apelos que recebiam.

Não é muito difícil entender as escolhas dos bispos argentinos naquele momento. A Igreja Católica está histórica e institucionalmente ligada ao Estado e ao poder político argentinos. Embora não seja a religião oficial, ela tem um tratamento privilegiado na Constituição da Argentina. Até 1994, por exemplo, era exigência constitucional ser católico para poder se candidatar à presidência da República.

E ainda hoje, o artigo 2º da Constituição argentina estabelece um  imposto ao culto, que é  destinado à Igreja Católica argentina: “O governo federal sustenta o culto católico apostólico romano”, diz o dispositivo do texto  que resiste a sete reformas constitucionais e a mais de 150 anos de história.

Bergoglio já foi intimado pela justiça a prestar esclarecimentos sobre sua atuação em relação á prisão dos dois jesuítas pela repressão. Também respondeu a indagações sobre o desaparecimento de uma militante política e de sua filha, ainda bebê. Saiu do tribunal sem pena, nem culpa formada. Hoje é mais conhecido por seu modo de vida simples, de ser o cardeal que se veste modestamente, cozinha a comida que come e viaja de ônibus. As histórias de seu passado, que tanto incomodam o Vaticano, servem melhor para entendê-lo do que para condená-lo.

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