Candidatos protestam contra métodos utilizados em recrutamentos: Uma análise jurídica

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Candidato reclama dos métodos adotados

A experiência de enfrentar a tensão de um processo seletivo não costuma ser agradável para ninguém, mas muitos candidatos também saem dos testes com outra sensação: inconformismo. Os alvos são o tratamento que recebem e os métodos adotados.

O analista de marketing Alan Zekcer diz ser uma “vítima” de seleções. Em uma de suas experiências, depois de ter passado por um mês e meio, foi chamado para a penúltima fase, a dinâmica de grupo. “Quando falava sobre minha experiência, tive uma surpresa: olhei para a psicóloga, e ela estava dormindo.”

E outros casos, como os candidatos passam por vários testes, em várias empresas, dizem perceber uma certa “padronização”.

É o que ressalta o engenheiro químico F.L.M. (não quer ser identificado). “Todos aplicam aquele teste com oito desenhos incompletos, que temos de completar e dar um título. Fazemos a primeira vez, depois se torna algo mecânico, fugindo ao objetivo do teste, na minha opinião.”

As reações contrárias às avaliações vêm de várias formas: consultores recebem e-mails e telefonemas com reclamações e há quem proteste direto na empresa contratante, tentando  argumentar e ser reinserido no processo, ou num estágio mais avançado, reúna as reivindicações e as coloque num site.

Às vezes os psicólogos concordam. “Nenhum processo é agradável. O recrutador tema dura missão de escolher um entre vários”, afirma Elaine Saad, da Saad-Fellipelli Outplacement.

Para a consultora Tatiana Wernikoff, 58, do IPO (Instituto de Psicologia Organizacional), ninguém está acostumado a se expor.

“Só que seleção é exposição de fragilidades e pontos fortes.”

No entanto, para João Rodrigues Canadá, 46, diretor-executivo do Grupo Foco, por vezes a competição distorce o objetivo dos recrutamentos. “O processo seletivo é uma escolha comparativa. Muitas vezes alguém qualificado não assume um comportamento valorizado pela empresa e é preterido, o que não quer dizer que não seja bom”, afirma.

QUEIXAS ABRANGEM DESLEIXO E FALTA DE ATENÇÃO

 Se normalmente as pessoas pensam em escrever um livro sobre a própria vida, sobre a de alguém que admire ou uma ficção, a idéia de Alexandre Medeiros, 25, engenheiro químico, soa, no mínimo, original: reunir as experiências vividas por ele e por amigos em processos eletivos.

Só ele diz já ter passado por 15 seleções, desde agosto do ano passado, até conseguir uma vaga.

A idéia amadureceu, e o projeto transformou-se em um site, montado com outros dois amigos, o “Odeio dinâmica” (www.geocities.com/odeiodinamica),

Recheado de críticas aos recrutamentos e aos recrutadores.

“Nossa principal queixa é que, principalmente no caso de trainees, os selecionadores passam a idéia de que essa é a função mais importante para a empresa. Por outro lado, a seleção não é bem elaborada e, muitas vezes, privilegia estereótipos”, afirma.

O analista Alan Zekcer não passou em uma dinâmica de grupo em que teve de separar bolas por cor, mas com os olhos vendados.

OLHOS VENDADOS

Medeiros já passou por situações inusitadas. Em uma das dinâmicas de que participou, as condutoras dividiram os candidatos em grupos e entregaram um tabuleiro dividido entre selva e mar e miniaturas de animais.

“Só me senti ridículo quando descobri que nossa tarefa era colocar cada animal em seu respectivo habitat, com os olhos vendados, sem poder usar a mão dominante e seguindo instruções dos membros da equipe.”

Para tentar fugir desse tipo de reclamação, Sofia Amaral, da Cia. de Talentos, diz que costuma aplicar etapas extras, para que pessoas diferentes possam observar o candidato em dias alternados.

“Qualquer processo pode ser injusto por avaliar a pessoa naquele momento e dentro de um grupo específico. Diversificar é uma maneira de errar menos.”

F.L.M., engenheiro químico, também tem críticas sobre a postura das companhias. “O nível de desorganização da maioria das empresas é alto, e a falta de atenção dispensada aos candidatos, por exemplo, ao esquecê-los em uma sala, prejudica muito a credibilidade”, afirma.

Uma explicação vem de João Rodrigues Canadá, do Grupo Foco. ‘Nenhum sistema de seleção é perfeito. Há falhas que procuramos diminuir a partir das sugestões que recebemos e do que a própria equipe percebe”, avalia.

Algumas empresas, mesmo tendo terceirizado o recrutamento, elegem um representante que possa acompanhar todas as fases do processo, como a Rhodia, cujo programa de trainee está entre os mais disputados do mercado.

José Emídio Teixeira, 51, gerente de relações sociais e educação da companhia e responsável pelos programas, esteve pessoalmente em boa parte das dinâmicas aplicadas para a escolha dos trainees.

“É fundamental, até para dar  mais segurança aos candidatos”, diz.

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 Críticas mudam sistemas de recrutamento

 Agradar a todos os participantes dos recrutamentos, principalmente quando esse números ultrapassa os 15 mil, torna-se praticamente impossível, afirma os consultores e profissionais de RH.

Mas, com o intuito de fazer uma intermediação, o escritório de advocacia Marcelo Gomes Freire Advogados Associados  levou algumas críticas feitas por candidatos a profissionais de Recursos Humanos, para saber qual a posição assumida pelas companhias diante dessas reclamações.

FALTA DE TRANSPARÊNCIA

Os candidatos dizem que as consultorias de RH e empresas em geral não divulgam os motivos de uma pessoa  ter sido excluído do processo, exceto quando os resultados são quantitativos (como teste de inglês).

Par Sofia Amaral, da Cia. de Talentos, o objetivo é ajudar os participantes. “Fazemos um paralelo do candidato com o perfil da vaga. Se falarmos quais os pontos que não foram condizentes para aquela empresa, a tendência é a de que o profissional se empenhe para melhorar esses traços numa próxima seleção, que pode não priorizar aquelas características.”

PROCESSOS LONGOS

Grandes recrutamentos, como os de trainees, levam, em média, de 45 a 60 dias, e essa foi uma das queixas feitas, por exemplo, ao Grupo Foco e por clientes da Saad-Fellipelli Outplacement.

João Canada, da Foco, defende essa duração: “É o tempo necessário para avaliar todo os candidatos de maneira justa. As seleções costumam ter várias fases, o que prolongam o processo”.

De acordo com José Emídio Teixeira, da Rhodia, há outra razão.

“Queremos que todos tenham a mesma chance, e que ninguém seja excluído por motivo diferente da falta de adequação ao perfil.”

PROBLEMAS OPERACIONAIS

Outros motivos de descontentamento para participantes de processos seletivos são: serem avisados das entrevistas em cima da hora, atrasos por parte de selecionadores, local inadequado para as atividades, sites com problemas técnicos e falta de contato posterior por parte da empresa.

Essas questões dependem da estrutura de cada companhia. Há as que têm um ou mais problemas e, o mais indicado, é avisar a empresa sobre  a insatisfação.

Foi assim que duas consultorias ouvidas, Foco e Cia. de Talentos, modificaram seus sistemas. A primeira, tornando o retorno uma prática efetiva, e a segunda, oferecendo mais opções de dias e horários para testes.

TESTES LÚDICOS SÃO VISTOS COMO INFANTIS

As grandes insatisfações dos aspirantes às vagas são as dinâmicas de grupo e a forma usada pelas empresas para avisar quem não vai seguir adiante no processo.

“Não vejo como dinâmicas que sugerem brincadeiras possam julgar um candidato”, diz Alan Zekcer, 25, analista de marketing.

Os consultores dividem as dinâmicas em dois tipos. As que pedem solução de situações relativas ao negócio da companhia, e as lúdicas, mais criticadas, que propõem, por exemplo, mímica, vendar os olhos do candidato e pedir que ele separe algo ou criar peças com brinquedos de montar.

Essas últimas, explica Tatiana Wernicoff, do  IPO, ajudavam a avaliar traços como iniciativa, comunicação e trabalho em equipe.

Robério Esteves Moreira, 40, gerente de marketing da Lego, especializada em brinquedos de montar, completa: “Também é analisada a rapidez de raciocínio e de associação de idéias. Há pessoas que não conseguem perceber a dimensão do uso do brinquedo”.

Isso, muitas vezes, por falta de informação, pois nem sempre explica-se o motivo da atividade.

“Se só fizer sentido a psicólogos, o resultado fica prejudicado”, diz Sofia Amaral, da Cia. de Talentos.

CONSOLO

E como avisar que alguém não foi aprovado ? Para tentar aliviar, algumas empresas telefonam ou mandam cartas ou e-mails.

“Elas elogiam, chegam a comparar você a grandes personalidades incompreendidas no início da carreira, como Einstein e Pelé, e, no fim, dizem que você não passou. É melhor ser sincero”, diz Alexandre de Medeiros, do site  “Odeio dinâmica”. “Já recebi cartas realistas, uma prova  de  que pode ser diferente”, emenda.

 PRINCIPAIS QUEIXAS DOS CANDIDATOS

  • Atrasos e longo tempo de espera antes dos testes
  • Processos seletivos muito demorados
  • Falta de informação sobre a vaga ou sobre os objetivos dos testes
  • Demora das empresas em dar a resposta sobre a avaliação
  • Mudança nas vagas ou nos processos durante o recrutamento ou após a contratação
  • Falta de transparência na seleção
  • Provas que não avaliariam a capacidade do candidato
  • Nem sempre há a presença de alguém da empresa as fases iniciais da seleção (quando o recrutamento é terceirizado)
  • Falta de critérios: quem viajou para o exterior por conta própria seria analisado da mesma forma que aquele que foi bancado pelos pais
  • Selecionadores terceirizados que desconhecem a empresa para qual estão recrutando futuros funcionários
  • Após a aprovação em testes, entrevistas e exames médicos,    marca-se o início do trabalho e depois cancela a vaga por motivo fútil.

 RELATOS

 “Em um processo, tive de fazer uma redação sobre um tema livre. Depois de ter ficado por um bom tempo pensando no que escreveria, a psicóloga chegou e falou que não era para eu me preocupar com o conteúdo porque só iria avaliar a minha caligrafia”

F.L.M.

engenheiro químico

 “Uma vez, se eu não procurasse a pessoa que estava aplicando o teste, estaria lá até hoje, aguardando a psicóloga, pois ela tinha esquecido que havia candidatos participando de um processo seletivo”

Idem

 “Você sempre fica um bom tempo esperando que alguém venha chamar para iniciar os testes, em ambientes nem sempre confortáveis. Isso depois que você se esforçou para chegar no horário combinado e driblou  trânsito, chuva, ou pior faltou no trabalho”

Idem

 Eu já havia trabalhado na HP (Hewlett-Packard) e fui tentar uma vaga em uma de suas parcerias achando que seria um diferencial. Minha surpresa foi quando contei à profissional de RH que tinha trabalhado lá, e ela me perguntou: ‘HP, o que é isso, home page ?

ALAN ZEKCER

analista de marketing

 “Uma empresa elaborou gincanas. Numa delas, tínhamos de adivinhar nomes de filmes por meio de mímicas. Vi gente imitando um cavalo, andando de joelhos pela sala com outro em cima fingindo ser um cavaleiro, para simbolizar o filme “Coração Valente”

Idem

 “Já tive de construir um produto com peças de montar, fazer um jingle como propaganda e desenhar o que representava aquela dinâmica. Só não sei a ligação com a vaga de operador de leasing”

Idem

Fonte: Marcelo Gomes Freire Advogados Associados

 

 

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